Anti-guia de como dançar bem.


Anti-guia de como dançar bem. (Parte 3)


  •   A análise de estudos da dança diante das visões do curso.

Por mais que eu fale com autonomia que algumas ideias na internet sobre a dança estão equivocadas, eu já tive, não o mesmo, mas um pensamento seguindo essa linha de raciocínio expressa nas redes sociais antes de entrar no curso. Ao decorrer do primeiro semestre pude desconstruir isso que se mantinha sólido em minha mente e começar a compreender a partir de artigos apresentados inicialmente por alguns professores, que esse mundo é muito mais além das limitações que me pregavam.
Além disso, em meio um banho de informações e conhecimento que jorraram através dos componentes curriculares[1], é perceptível que entre as ideias de diversos autores apresentados a mim nesse primeiro semestre, era recorrente encontrar alguns momentos de convergência e isso ocorria bastante no caso das singularidades dos corpos, onde eles frisavam bastante a importância dessa diversidade corporal. Em um dos primeiros textos que li me deparei com a seguinte frase de Airton Tomazzoni: Sendo todos humanos, somos indivíduos com singularidade e diferença de ações”[2]. Isso quer dizer, que é natural do ser humano ter seu próprio jeito para qualquer coisa, não apenas para dança e sim para ações que são propostas a nós na vida e certamente vamos reagir cada um a sua maneira em situações específicas.
Na sequência, senti-me abraçada por cada texto como se todo o julgamento posto a dança presente em meu corpo estivesse ficado no passado, e agora a “moda” seria não seguir padrões, desmontar ordens e ideais perfeitos aplaudidos pelo sistema de arte. Mais adiante pude ter acesso ao “Quem tem medo da arte contemporânea?” de Fernando Cocchiaralle, onde destaca que Se ele é um artista, tem um estilo só seu, inconfundível”[3]. Diante disso, ele me fez refletir sobre o conceito de mimesis de Aristóteles, que involuntariamente exercemos até hoje. Esse processo de imitação contínuo e sucessivo que acontece na vida é comum se expandir para tudo que fazemos.
Se vejo alguém fazer algo muito bem de uma forma agradável, provavelmente a minha intuição é imitá-la até conseguir realizar isso tão bem quanto a pessoa em quem eu me espelho. Espelho? Já pensou como deve ser, espelhar-se em alguém? Não ter autonomia nem liberdade? Não ser capaz de criar, apenas reproduzir? Isso seria um terror para um verdadeiro espírito de artista. O artista cria e elabora obras por meio de um processo, seguindo fielmente sua identidade em cada etapa para no fim construir isso que os olhos veem. Por olhares de uns, estranho, por outros, interessante, porém sempre será incomparável e inconfundível, desse modo provando as limitações do espelho que se esforça para reproduzir a tal especificidade que funciona como um DNA, incompatível se não vier da mesma fonte.
A história da dança me chamou a atenção pelo fato de certos bailarinos possuírem a noção dessa ligação entre técnica e expressão. No texto do Roberto Pereira “Entre o céu e a Terra”, ele explica bem essa dualidade que na época ocasionava comparações desnecessárias em busca de algo inteligível para compreender a seguinte indagação que atormentava à todos: “(...) impossível dizer que naquela bailarina falta algo que não se sabe o que é, já que técnica se sabe o que é”. Isso era um transtorno, sentir que as danças das bailarinas eram diferentes, os movimentos nem se quer eram parecidos na forma da execução, entretanto, não poderiam explicar o motivo ou o que faltava em uma, nem em outra, já que isso vem de dentro para fora.
A particularidade aparece constantemente no corpo de todos nós, afinal todos nós somos seres dançantes, que estamos em constante movimento vulnerável a qualquer circunstância entendida como tal. Perante a procura de justificativas para a avaliação de uma dança mais apropriada e uma menos adequada, colocando em evidência como explicação disso o gênero e estilos, encerro este tópico com uma citação: “Não estamos falando mais gêneros ou estilos de dança, antes, trata-se de pessoas, diferentes umas das outras.” (Roberto Pereira)




[1] Os componentes curriculares a qual eu me refiro foram ofertados no curso de dança da Universidade Federal do Ceará, no primeiro semestre de 2018 são: História e Temporalidade na dança: Panoramas e Dança e Pensamento: Passagens.
[2] Frase citada encontrada no artigo de Airton Tomazzoni, Cartas sobre a dança de Noverre.


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