Anti-guia de como dançar bem.

Anti-guia de como dançar (Parte 2)

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  • A dança vista por olhares online.

Enquanto navegava por diversos blogs e artigos, a cada leitura uma nova questão se formava em minha mente, tendo em vista que alguns enfatizaram a relação de bem estar que a dança proporciona e que por tanto é o que faz valer a pena, outros por sua vez persistiam na ideia de que quanto mais vezes se pratica, mais você se aproxima da perfeição, ou seja, visando a técnica como um dos elementos básicos para “dançar bem”.  
Ao ler alguns textos mecanicistas (que priorizavam o movimento mecânico, automático e preciso) é inevitável a analogia que vem à cabeça sobre os atletas olímpicos, que por sua vez treinam incessantemente em busca da perfeição de seus movimentos com o objetivo de serem avaliados o tempo todo e terem seus esforços resumidos em uma nota seca apresentada pelos jurados, numa prova que não poderá haver erros. Vocês acham mesmo que a dança pode ser comparada à ginástica artística, por exemplo? Que podemos dar uma nota para dança do outro? Ou ao menos classifica-la como boa ou ruim?
Em contraposição, ainda encontrei textos reconfortantes, porém, em sua maioria abordavam fortemente a autoestima e a insegurança como principais barreiras que impedem pessoas a se soltarem e descobrirem sua dança. Por esse motivo era muito frequente encontrar frases como: “Feche os olhos e dance como se ninguém estivesse olhando”. Quando na verdade, os olhos precisam estar bem abertos sendo capazes de observarem a espacialidade e a reação emanando do outro que o vê, você escolhe se essa energia irá impulsionar sua dança deixando-a mais fluida ou se irá ocasionar uma sensação ruim e sufocante dando fim a ela. Sobretudo entendo que confiança é importante em tudo que fazemos, mas não devemos descartar o olhar do outro, já que vivemos em sociedade teremos que aprender a lidar com ele e transformá-lo em algo benéfico para nossa dança.
 Além disso, não deixei de notar que a falta de incentivo da internet para as pessoas exercerem autonomia em sua própria dança, não encontrei nada induzindo a dançar conforme o que a música causa em seu corpo ou de acordo com a necessidade que você sente em cada momento, já que corpo e mente são indissociáveis e você pode dançar mesmo que esteja triste. Sinta o movimento permear e ir escorrendo pelo seu corpo, como se fosse aquele banho tão esperado no fim de um dia cansativo, que alivia a alma, sendo esse um movimento leve ou brusco. A explicação da ciência para essa sensação de prazer involuntária é a liberação da endorfina no sangue, porém, sabemos que quando houver paixão, a endorfina não bastará, será insatisfatória e insaciável. Quando existir essa paixão será possível senti-la mesmo não sendo em seu corpo, mesmo sendo apenas um espectador, mesmo não sendo perfeito, mesmo não sendo técnico. O que eu quero dizer com isso tudo é que parem de pensar que a dança é só praticar coreografias constantemente até chegar à um objetivo, não se resume só a isso.
 Enfim, encontrei um texto que me despertou várias indagações, diferente de todos que já tinha visto. Logo no início aquela frase com um tom curioso e ao mesmo tempo verdadeiro recaiu como um colírio em meus olhos: “Aprender a dançar bem, é um processo tão complexo e intrigante quanto viver!, frase de Tatiane Melo no site Arquitetura da dança[1]. A partir dessa comparação um tanto profunda a autora propõe aos seus leitores uma reflexão na qual surgem questionamentos sobre a relação entre os dois, uma comparação tão usada e subjetiva. E daí vem a pergunta, você vive realmente a sua vida? Se vive, você a vive para os outros ou para si mesmo? Você concorda que dançar seja tão intrigante quanto viver?
A dança, por mais prazerosa que seja, quando usada para agradar olhares externos, pode tornar-se aterrorizante e desconfortável. Na maioria das vezes esses olhares não interferem em nada no seu movimento, mas estão lá como um incômodo para lembrar que você não é bom o bastante, que sua dança não faz diferença no mundo, que é desnecessário e perda de tempo, entre outros. Você a faz e de acordo com o caminho (corpo) que lhe é proposto, poderá escolher descartar os julgamentos e críticas que possam vir do olhar do outro, priorizando a sensação que aquela experiência trará em seu corpo não permitindo prender-se apenas à estética. 
No modo como alguns textos eram escritos traziam consigo a essência de uma indiferença à dança, como se apenas as pessoas que não “soubessem” dançar devessem valorizar esse feito. Será que você dança melhor só por conseguir executar um movimento no qual eu não esteja preparado ou possibilitado a realizar? Na maioria das vezes vemos alguém ser muito elogiado e admirado por conseguir fazer determinado “passo”, sendo ele inédito e muito complexo necessitando de muito treinamento e técnica para que seja concebido. Porém, se pararmos para pensar um instante sobre isso, questionamos que se esse movimento fosse algo comum como levantar o braço por exemplo e todos fossemos capazes de executá-lo, você continuaria admirando quem o faz? Que tal se você reparasse no jeito em que o movimento reverbera em cada um, como é singular e não se repete em outra pessoa. Talvez você não pudesse classificar se é bom ou ruim, melhor ou pior, mas se abriria à possibilidade de degustar o privilégio da dança se adaptar ao corpo de cada um.




[1] Publicação completa citada acima disponível no link: http://arquiteturadadanca.com.br/main.asp?link=noticia&id=1235. Acessado dia 21 de jun de 2018.

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